segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Ordem e Progresso


“Comandar muitos é o mesmo que comandar poucos. Tudo é uma questão de organização” Sun-Tzu

Todo mundo sabe que uma mudança de endereço tem dia marcado para acontecer, mas geralmente não tem data certa para terminar. E depois que tudo foi entregue, começa a parte de abrir as caixas e colocar as coisas no lugar. Nessa hora a gente entende o quanto é importante um mínimo de organização na fase pré-mudança: ficamos dias sem encontrar aquela roupa, ou aquele cabo do notebook, e só quando tudo está no devido lugar temos a sensação de que a mudança, enfim, terminou.
Essa associação entre a organização dos objetos e o sentimento de bem-estar em casa é uma das bases do método KonMari, desenvolvido pela japonesa Marie Kondo e conhecido em todo o mundo por seus livros “A Mágica da Arrumação” e “Isso Me Traz Alegria”, publicados no Brasil pela Sextante.

Logo que voltei à Divinópolis, Marie Kondo estava em alta na minha casa: minha mãe havia comprado os dois livros e, como de costume, queria muito que eu os lesse. Não havia melhor momento: recém-chegada, precisava dar um jeito de me organizar no novo espaço. A diferença é que, ao contrário da maioria das pessoas nessa situação, eu tinha menos objetos que o necessário para ocupar meu novo quarto. De forma singular, eu me encontrava na situação oposta daqueles que procuram a personal organizer – eu tinha espaço sobrando.
Com o início das aulas e as atividades letivas do semestre, acabei deixando a Marie Kondo de lado (a essa altura, carinhosamente já sendo chamada pelo nome). Com o fim das atividades presenciais na faculdade, comecei a passar mais tempo em casa, e aí a questão da organização voltou à tona. Para que eu pudesse ter espaço, outros o perderam, obviamente. Sendo assim, nada mais justo que eu tentasse ajudar àqueles que tinha prejudicado organizando seus objetos. E foi então que, retomando a leitura, entendi outra das bases do método KonMari: ninguém pode arrumar suas coisas por você.
Na verdade, não está escrito dessa forma nos livros. Mas o título  de um deles já sugere que aquilo que “me traz alegria” não é necessariamente aquilo que “te traz alegria”. Ou seja, cada um deve arrumar as próprias coisas, a própria casa. Essa postura é consequência da principal ideia do método: nós só devemos ter ou manter aquilo que nos faz feliz. E ninguém pode nos dizer o quê nos faz feliz, cabe a cada um escolher os objetos que lhe transmitem felicidade – por isso a arrumação é pessoal e intransferível.
Partindo dessa ideia central, a autora a desenvolve para mostrar que nos tornamos desorganizados e acumuladores quando não seguimos o princípio de manter apenas o que nos faz bem. O desdobramento disso é ainda mais prático: ao manter apenas o que nos traz alegria, devemos descartar o restante. No fundo, o método de arrumação de Marie Kondo contém em si a proposta do desapego, do descarte de objetos que perderam sua função ou utilidade, mas que sobretudo, não nos agrega boas vibrações.
É impossível não associar a filosofia do livro às filosofias orientais sobre a transitoriedade da vida e o desapego com o mundo material. Mas apesar dos dois livros tratarem do mesmo assunto – a “mágica” da arrumação –  é fácil perceber a diferença entre eles. O primeiro estabelece os princípios do método: manter apenas ‘o que te traz alegria’; a separação por categoria, não por localização; o ‘dia da organização’ como evento especial; o descarte em primeiro lugar e, por fim, como a organização transforma sua vida. Já o segundo livro, como o próprio nome diz, é um “guia ilustrado”, ou seja, contém indicações visuais e dicas de como aplicar diretamente o método KonMari.
De certa forma, o primeiro livro está contido no segundo. E é por isso que, se tivesse que indicá-lo a alguém, eu antes perguntaria o que a pessoa deseja com a leitura do livro. Aqueles que já estão decididos a começar uma arrumação em casa podem optar pelo segundo, afinal, já estão conscientes da necessidade (e dos benefícios) de arrumar a casa seguindo um método de organização. Mas para quem não tem muita certeza do que gostaria de fazer, ou quer descobrir uma maneira de organizar-se, o primeiro livro é perfeito.
No meu caso, os dois livros se complementaram: usei as dicas e a metodologia do guia ilustrado para organizar o guarda-roupa que eu tinha “desalojado” e os armários com objetos que mais usaria no dia a dia, enquanto que “A Mágica da Arrumação” me fez refletir sobre o espírito de acúmulo familiar, e como eu poderia lidar com isso.
Marie Kondo não precisou me convencer de como a organização transforma nossa vida. Há muitos anos percebi que arrumar guarda-roupas e armários me acalmava, e que as ideias vão se organizando à medida que as coisas também se organizam. Desenvolvi assim o que para alguns seria uma leve manifestação de TOC (Transtorno Obssessivo-Compulsivo), mas que para mim nada mais é do que reproduzir a sensação descrita no primeiro parágrafo: quando tudo está no devido lugar, a mudança enfim terminou.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Quando o sol bater na janela do meu quarto

Nesse final de semana completaram-se 2 meses que mudei de volta para Divinópolis-MG, minha cidade natal. E respondendo à uma pergunta de um tio, percebi como está acontecendo esse processo de readaptação – e como o primeiro livro que terminei de ler depois da mudança tem a ver com isso.

Eu não me lembro exatamente quando foi que comprei “O Sol é Para Todos”, de Harper Lee, mas com certeza foi ano passado, quando lançou seu segundo romance, “Vá, coloque um vigia”. Acredito que ao ler as críticas, que mencionam o segundo romance como continuidade do primeiro, meu pensamento lógico resolveu: “vamos começar do começo”. E mesmo tendo sido adaptado para o cinema com muito sucesso, decidi que era melhor ler o livro antes de assistir o filme ganhador de 3 Oscars em 1963.

E foi com “O Sol é para todos” na mochila que viajei entre Divinópolis – Belo Horizonte – São Paulo no mês de Agosto. O livro me fez companhia e me ajudou a entender como mudanças acontecem sem que a gente perceba, especialmente aos olhos de uma criança. Não é o primeiro livro cuja história é narrada do ponto de vista infantil, e supostamente autobiográfico. Comecei a pensar se esse não seria um gênero da literatura norte-americana, junto com “O Apanhador no Campo de Centeio”, mas sendo universal como a literatura, percebi que existem obras assim também no Brasil: O Ateneu e Minha Vida de Menina, por exemplo.

Sou curiosa sobre esse “gênero literário” há muito tempo. Alguns apontam a narrativa em primeira pessoa como falha – crianças ou adolescentes não conseguiriam escrever de forma tão elaborada. Outros, para o traço autobiográfico (às vezes claro, às vezes não) como defeito que personaliza demais o livro. Acho que mesmo com as críticas, são histórias que se fossem contadas de outra forma, perderiam sua essência: relatar as mudanças de uma fase da vida. E depois de lê-los, a gente percebe que essas mudanças realmente nunca terminam.

“O Sol é para todos” é descrito na orelha do livro como “uma história atemporal sobre tolerância, perda da inocência e conceito de justiça”. Mas tolerância, inocência e justiça não são conceitos infantis. Eles nos acompanham a vida toda, e vão sendo alterados a partir de nossas experiências. Quando meu tio me perguntou como estava sendo a adaptação SP-Divinópolis, ele me lembrou o quanto eu mudei no período em que estive fora. Algumas pessoas sugeriram que eu sentiria falta do ritmo de São Paulo, das muitas opções pra tudo, enfim, das comodidades de uma cidade grande. Para minha surpresa, descobri que consigo ser mais tolerante aos “defeitos” de uma cidade do interior, e que perdi a minha inocência de adolescente, como era de se esperar depois de tantos anos.


Mas morar em São Paulo modificou completamente o meu conceito de justiça. Fez com que o certo e o errado ficassem cada vez mais claros, preto no branco, à medida que eu percebia o cinza da metrópole. E seria injusto dizer que só eu mudei nesse período. A cidade para qual voltei também não é mais a mesma – Graças a Deus! A literatura mostra que nem sempre as mudanças são percebidas, e a experiência nos diz que algumas não são bem vindas. Só que mudar é preciso, e por mais que seja clichê, a vida acontece é no fluxo. O legal é que ficam as histórias, que contam como nossos conceitos vão se alterando ao longo do tempo.

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Correria

Para ler ouvindo – OneRepublic, “I lived”


With every broken bone / I swear I lived

Dizem que todo corredor tem uma prova favorita. Aquela corrida que, sempre que abrem as inscrições, o coração dá uns pulinhos e você logo quer se inscrever. Quem gosta de correr e participar de corridas de rua, tem sempre uma “prova-alvo” em mente – é como chamamos o objetivo do treinamento: participar daquela corrida.

No meu caso, é uma cidade favorita para correr.

Desde que fui ao Rio de Janeiro pela primeira vez, há 6 anos, prometi a mim mesma que, sempre que possível, eu daria um jeito de correr naquele lugar. Nessa mesma viagem, eu decidi que minha primeira meia-maratona seria na Cidade Maravilhosa. Alguns meses depois, lá estava eu para correr 21km pela primeira vez. E foi incrível!

Consegui correr uma meia-maratona no Rio de Janeiro por três anos consecutivos, 2 vezes no mesmo trajeto. Adquiri uma familiaridade com a orla da Zona Sul que só quem corre nela pode ter. Fui melhorando os tempos, me sentindo cada vez mais confortável com distância. Até que em outubro de 2014, fraturei a clavícula num acidente de bicicleta.

Quando fui atropelada a caminho do treino de bike, meus primeiros pensamentos foram: “preciso avisar meus treinadores” e “estava atrasada pro treino”. Depois, já no hospital, com o diagnóstico confuso e sem ninguém sabendo direito quanto tempo eu ia demorar para me recuperar totalmente, pensei “não vai rolar o revezamento no autódromo de Interlagos”. É, o esporte fazia parte da minha rotina e eu não estava sabendo como lidar com a sua ausência. Até que alguém escreveu pra mim que entendia, que ficar afastada do trabalho era chato, que a quebra da rotina era um problema, mas que ruim mesmo era não poder praticar meu esporte.

A recuperação da fratura e o reinício dos treinos ocorreram quase simultaneamente. Voltar para São Paulo, voltar a trabalhar e retomar a rotina também foi parte desse processo. Eu aprendi que não dava pra ser tudo-ao-mesmo-tempo-agora, como eu queria. Tinha que ser um passo de cada vez. Às vezes, meu corpo ia me avisar que não tava rolando - as dores que se tornaram companheiras – em outras ele me ajudava pedindo que eu experimentasse outras formas de movimento – e assim surgiu a paixão pelo Pilates. Aos poucos, eu voltei a pensar em quais seriam os próximos desafios na corrida.

Corri a Volta a Ilha, fiz provas de 10, 15km... Mas a corrida não ocupava mais o centro. O importante era me recuperar – e bem! Andei algumas vezes na bike, cumpri religiosamente as sessões de fisioterapia e fui assídua no Pilates. Voltei a correr, porém pensando mais no meu bem-estar do que em performance, em quebra de recorde pessoal. E nesse processo, comecei a ter uma relação com meu esporte que deu à ele sua devida importância: se tornou um meio, e não um fim.

Com isso, me senti pronta pra ir adiante e tentar fazer outras coisas. Não apenas na corrida, mas na vida também. Me arrisquei no trabalho, mudei meus objetivos de estudo, e posso dizer que até o estado civil foi alterado. Quando chegou a vez do esporte, não tinha mais dúvida: se eu queria fazer algo novo, que fosse no Rio de Janeiro.

E assim, me preparei para correr 32km na Maratona do Rio. “Oi, como assim? A Maratona não tem 42.195?” É, só que eu quis fazer algo novo, diferente. Quis fazer por mim. Ajustei os treinos, a dieta e a rotina, e assim foi. No dia, saí junto com o pessoal da Maratona, corri a maior parte do percurso, e parei na placa do km32. Não peguei medalha, não comi a batata nem tomei a coca-cola sem gás. Mas cumpri meu objetivo feliz da vida, com a consciência tranquila de que aquilo era o que eu queria ter feito. “Mas não dava pra chegar até o final?” alguns perguntaram. Não, não dava. Minha linha de chegada era onde meu coração me pediu pra parar.

O engraçado é que depois não teve “férias” ou aquele sentimento de que “e agora, o que eu faço?”. Depois, vieram outros desafios, mais acadêmicos, intelectuais. Ausência nos treinos também, por que não? A vida apresenta outras provas e desafios, e assim, a gente vai escolhendo o que quer fazer ou não.

Na preparação pros “32 no Rio”, rolou muita leitura sobre corrida, além dos treinos, é claro. Encarar longas distâncias envolve se preparar mentalmente também – vão ser muitos kms tendo a si mesmo como companhia. Quando voltei a correr pós-fratura, prometi a mim mesma que ia tentar me livrar da música enquanto corria. Consegui, até certo ponto (na esteira não rola sem!). Descobri que não é preciso ser radical, ser flexível faz bem.

Li “50/50”, o livro de Dean Kanazes sobre seu desafio de correr 50 maratonas em 50 dias, uma em cada Estado Norte-Americano. A rotina, as dicas, tudo me ajudou no meu próprio desafio. Foi uma leitura prazerosa, e até divertida, quando percebi que nem sempre meus treinos fluíam como eu gostaria, e nem as provas de Karnazes saíam sempre dentro do planejado. Durante a prova, eu me lembrava que tinha escolhido estar ali, correr aquela prova. Que aquela tinha sido uma opção minha, e que sendo responsável por ela, tive que fazer escolhas para estar ali.


O ombro quebrado me ensinou a fazer essas escolher sem ter peso na consciência de que “não estou conciliando tudo”. A recuperação se transformou num processo de autoconhecimento – e esse, não vai ter fim. Saber o que você quer ser, o que quer fazer, e ficar em paz com suas escolhas não é fácil. Mas a vida, os livros, e a corrida me ajudam sempre.


segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

2.9 é quase 30

Janeiro passou, carnaval veio e foi e, de repente, já estou nos 45 do segundo tempo de fevereiro – porque ano bissexto vai até os acréscimos! Quando eu vi, não estava mais cumprindo aquela promessa de virada de ano: “publish or perish”. Mas ainda bem que tem a prorrogação...

Se eu proponho que esse espaço concentre minhas reflexões pessoais, talvez eu devesse começar a refletir mais por escrito. Porém, como canta a Tiê, “palavras não bastam”. E hoje, me deparo com o problema de ter um blog: o quanto revelar de si mantendo o mistério, a discrição, e sobretudo, a privacidade. O que eu quero falar versus o que o outro entende do que escrevo. E também, o quanto de verdade coloco nos meus escritos.

É triste encarar que não consigo produzir conteúdo suficiente para o blog por um simples motivo: não leio tanto quanto precisava. Tenho mantido a média de um livro por mês, às vezes mais, às vezes menos, dependendo do gênero e do estilo. Em algum momento quando pensei esse espaço, estabeleci que isso não era suficiente. Uma vez que esse não seria um blog de literatura, resenhas ou críticas, eu deveria conhecer mais sobre livros – só que nem eu mesma sabia o que isso significava.

Pois, começando semana passada o último ano para mudar de régua (leia-se “fiz 29 anos”) resolvi mandar às favas esses meus pré-requisitos e pré-conceitos. Escrever para mim é um prazer, que veio ao lado de outro, inseparável: ler. Logo, se leio, escrevo. E todo professor lê muito: notícias, trabalhos de alunos, livros didáticos, textos de formação. Por que não escrever sobre eles? O que me impede de refletir por escrito sobre o meu cotidiano não-literário? Por que raios eu achava que tinha que “acumular conteúdo e conhecimento” para escrever?

Perceber que estou “quase nos 30” me abriu os olhos para algumas amarras que venho carregando comigo. Ter sempre algo inteligente para dizer, manifestar opinião sobre tudo, conhecer filosofia, sociologia, ler os clássicos, assistir sempre aos filmes cults e alternativos. Ser boa filha, boa professora, correr cada vez mais e melhor, cozinhar como uma chef, entender de vinho, alimentação saudável e fotografia. E por aí vai... A vida foi ficando chata, uma (auto)cobrança sem fim e, o pior: sem motivo. Perdeu a graça.


Uma hora a gente cansa disso tudo, né? E não basta 30 dias de férias pra gente se reciclar e tentar rever nossas posturas. Também não são 30 minutos de meditação ou de exercício físico 3 vezes por semana que vão solucionar o problema. Pra mim, é quando a gente faz aniversário que alguma coisa muda dentro da gente: mais um ano pra gente aproveitar a vida - a nossa, e de quem a gente ama.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Viver não dói

Para ler ouvindo: http://youtu.be/MC8QcaMMVQE

Fui liberada para fisioterapia. Exatos 42 dias após a cirurgia, conforme previsto pelo médico, meu corpo cumpriu sua parte no trato e consertou que estava estragado, com uma pequena ajuda humana/mecânica. Ficaram as marcas externas do intervenção cirúrgica - aka cicatrizes - e o lembrete interno em aço cirúrgico - que não pretendo remover, apesar de me ter sido oferecida essa opção. Nesse processo, descobri que se algum dia me interessasse por medicina, é na ortopedia que seria minha residência. A semelhança do ortopedista com o profissões da construção civil me fascinou - o corpo é, sim, uma grande obra.

A dor é inevitável, o sofrimento é opcional. Essas palavras de um poema de Carlos Drummond de Andrade nunca fizeram tanto sentido concretamente. Aprendi que a dor faz parte, sim, do processo de recuperação pós-cirurgico, funcionando até mesmo como uma limitação natural dos movimentos - como se o corpo já soubesse do terrorismo feito pelo médico para que eu me imobilizasse corretamente. Mas a analgesia, como disse um amigo, também faz parte do processo, assim como o aprendizado que não temos que aguentar tudo de cara limpa, e muito menos sozinhos. Na verdade, a solidão é inerente à recuperação física: ninguém pode melhorar no seu lugar. O esforço é único e exclusivamente do paciente - que tem que ter, como o próprio nome diz, paciência. Mas se existe apoio de amigos e familiares, todo o processo é mais leve. E acredito que também seja mais rápido.

Essa é, com certeza, a grande lição de qualquer doença: o tempo cura tudo. E arrisco dizer que o que o tempo não cura, é por que não está pronto para ser encerrado. O corpo humano, essa máquina que incrível em que habitamos, é capaz de se curar e se restabelecer de uma forma impressionante! Sim, esse processo pode deixar vestígios. Cicatrizes, por exemplo, são sinais externos do que se passou do lado de dentro. Mas às vezes, os machucados são tão profundos que não deixam marcas aparentes - e podem, também, não estar completamente cicatrizados.

Nesse período de "convalescência", coloquei uma parte da leitura em dia - a não-acadêmica, é claro. Devorei romances, autoajuda, tudo que me caía nas mãos e pudesse aplacar um pouco as dores, tanto as físicas quanto as da alma. Com o passar dos dias, percebi que a recuperação física era uma coisa, a emocional era outra. O movimento vai retornando aos poucos, a liberdade junto. Mas a coragem para enfrentar o que aconteceu e superar o trauma não vem com as sessões de fisioterapia. A cicatriz está presente, mas o verdadeiro machucado não é aparente.

É essa coragem o grande tema do livro que dá título à esse post: para viver, é preciso coragem. Os capítulos são leves, recheados de histórias e exemplos sobre a vontade de viver a vida, de aproveitar o tempo. Claro, a dor virá. Ela é inevitável, como disse o poeta. Mas é ela que traz o sinal da experiência, a certeza de ter vivido. Para a autora, "não viver dói mais, porque nos condena ao nada". Quando perguntei ao meu pai como iria conseguir fazer de novo aquilo que gosto, sem lembrar da dor e do sofrimento, ele disse "vai depender da sua paixão, da sua vontade em continuar. Aí, minha filha, Nossa Senhora pega na mão e diz 'vai'!". Meu pai nunca leu os livros da Leila Ferreira, mas compartilha de sua mineiridade - aquele jeitinho que, para minha alegria, ando convivendo de perto nos últimos meses.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Reflexões de Um Ano Sísifo

Quando criei o blog, defini que não iria escrever ou comentar sobre nenhum livro. Eles aqui são entendidos como objetos de estudo e admiração, e não a partir da narrativa /história que contém. Escrevia os posts variando temas e assuntos, demorando mais do que deveria para publicá-los, sem a regularidade que um blog "exige", mas sempre ao redor desses blocos mágicos de papel encadernado que me fascinam desde sempre.
Pelo menos foi assim até o último dia 14/10, quando um acidente mudou todos o meus planos. Alguns tive que adiar, outros cancelar e até mesmo abrir mão. E esse processo foi (e está sendo) tão doloroso quanto recuperar-me da cirurgia necessária após o acidente. Mais do que a paciência que um paciente deve ter, resiliência é a maior lição que aprendi nesses últimos dias.
Há algum tempo (prefiro não tentar contabilizar para evitar constrangimentos) adquiri os três volumes dos diários de Edgar Morin, publicados pela editora do SESC. Tinha decidido aventurar-me pelos escritos do pensador francês, indo além dos textos sobre educação lidos durante a faculdade, e os diários me pareceram uma forma mais intrigante de aproximar-me dessa figura, conhecida em todo o mundo por sua cultura e erudição.
Talvez eu não devesse ter começado a ler por "Um Ano Sísifo". Triste prenúncio de que meu próprio ano seria assim, uma sucessão de tentativas que fracassaram. Mas por algum motivo desconhecido o ano de 1994 me atraiu, e eu comecei a ler os relatos pessoais de Morin pelo ano que ele próprio considera infrutífero. Na verdade, eu ainda não terminei de lê-lo, mas como esse blog não prima pelas resenhas literárias, me dou a liberdade de comentar antes de terminada a leitura.
Para os historiadores, o tempo é uma unidade de medida imprescindível, apesar de controversa. O que é um ano na duração dos impérios? O que é um dia na vida de um rei? Sim, talvez seja pouco se apreendidos no todo - Roma não foi construída em um dia. Mas foi no ano 476 que os Hunos a invadiram, e foi em primeiro de novembro de 1755 que Lisboa foi atingida pelo grande terremoto. Os acontecimentos têm seu registro no tempo, e só esse define o que fica ou não marcado na História.
Ler o diário de Morin  é deparar-me com fatos e acontecimentos de minha própria história, narrados por outra pessoa. Seu comentário sobre o acidente de Ayrton Senna, ou sobre o acordo de paz entre Yasser Arafat e Yitzhak Rabin fizeram parte do meu ano de 1994. A sensação de compartilhar a lembrança dos acontecimentos mostra que estes se tornaram parte da memória coletiva, e que aquele ano, apesar de falho na concretização dos projetos pessoais de Edgar Morin, foi bastante frutífero em marcos históricos
Talvez 2014 também será assim: um ano sísifo para mim, em que por mais que levasse a pedra morro acima, ela insistia em voltar para baixo. Mas, quem sabe? O ano - e a leitura do Diário - ainda não acabaram. 

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Toujours les livres

Hoje, dia 23 de Abril, é o Dia do Livro. E apesar deste blog estar (aparentemente) esquecido, a data não passou em branco. Recebi vários e-mails (mala-direta) de livrarias, vi anúncios de promoções em toda página que entrava (malditos cookies que guardam o que pesquiso!). Parece que qualquer comemoração é justificativa para consumo.

E nessa onda “compre batom... compre batom...” (só os fortes vão entender!) pensei no último livro que comprei: La Petite Fille de Monsieur Linh[1].  Leitura obrigatória do curso de francês desse semestre, parece-me um romance bonitinho. Digo parece, porque ainda não o li. Como assim? Pois é. Se tenho até o fim do curso, então não há motivos para apressar a leitura. Coloco-o na bolsa, e fico aguardando uma furtiva oportunidade para leitura.

A verdade é que quando a gente faz do estudo profissão/lazer/leitmotiv, não há um só momento em que não estejamos acompanhados de um livro. Há alguns anos fui encontrar um amigo em Belo Horizonte para resolver uma pendência burocrática. Uma das primeiras perguntas que ele me fez foi “deixe-me ver o que está lendo”. Lembro que fiquei espantada – como ele sabia que eu tinha um livro na bolsa? Sim, talvez a viagem de 2 horas de ônibus ficaria mais agradável com uma leitura. Mas não era por isso. Ele simplesmente sabia que eu sempre estaria acompanhada de um.

Ambas as vezes que viajei para fora do país (a Argentina não conta, certo?) foi para estudar. Fazer uma parte da pós-graduação e, mais recentemente, aperfeiçoamento em uma língua estrangeira. Na volta, meu maior orgulho eram os livros trazidos na mala. Possuí-los dava uma sensação de dever cumprido: a viagem não foi em vão. Curiosamente, o mesmo sentimento acontece quando visito a casa dos pais – uma mala sem livros não faz sentido algum.

Escrevo pensando na companhia constante que eles oferecem em meus deslocamentos constantes. Seja a leitura no metrô, os PCN’s a caminho do trabalho, ou ainda o Guia França da Publifolha: como boa romântica, impossível pensar em uma viagem sem carregar um bom livro junto - e um caderno para anotações. E como disse Santo Agostinho: “O mundo é um livro, e aqueles que não viajam lêem somente uma página.” Então, bon voyage mes amis!



[1] http://fr.wikipedia.org/wiki/La_Petite_Fille_de_Monsieur_Linh