sábado, 11 de junho de 2011

Cozinha e Biblioteca

Esses dias frios e chuvosos têm me obrigado a ficar mais em casa. O que significa muitas vezes fazer o próprio almoço ou jantar – café da manhã não existe como opção de refeição externa. E ao ir para o fogão, muitas vezes levo meus cadernos de receita comigo.

No meu caso, a cozinha é uma extensão da área de estudo/trabalho. Espacialmente, eu diria que são contíguas. Mas é bem mais que isso. Sempre que preciso clarear as idéias, pensar em algum ponto específico, ou mesmo refletir sobre o texto que acabo de ler, vou para cozinha..

Cozinhar pra mim é terapêutico. O primeiro passo, é escolher uma receita que combina com meu humor no dia. Do mesmo jeito que para escrever sobre o tema A, estava lendo o livro B. À medida que vou executando o passo a passo da receita, penso nos argumentos que o autor escolhe para corroborar sua ideia, na ordem que ele os apresenta no texto – como os ingredientes de uma receita, alguns argumentos podem ter a ordem trocada, outros não.

Se é uma receita que vai ao forno, como um bolo por exemplo, comparo a duração do cozimento com o tempo que o autor levou para elaborar suas idéias. Não se faz um bolo sem antes saber como fritar um ovo. Marc Bloch não teria escrito “Apologia da História” se não tivesse pensado antes “Os Reis Taumaturgos”. É preciso cumprir etapas, amadurecer no ofício – tanto na cozinha quanto na vida acadêmica.

Na caixa de livros que ganhei, mencionada no post anterior, vieram 2 exemplares da coleção “Cozinha do mundo”, da Editora Abril: Espanha e China. Claro, são países que adoraria conhecer. Mas o que me chamou a atenção é que alguns pratos de sua culinária, como a paella e o yakissoba, se tornaram tão populares graças aos imigrantes, que não sabemos mais como eram feitos originalmente.

Os livros de culinária muitas vezes se prestam à esse serviço: registrar como um prato é feito em seu formato original. Claro que variações sempre serão possíveis. Afinal, é só um registro passo a passo, e não um limitador de sua execução. E acho que essa é a grande diferença entre eles e os cadernos de receita.

Ano passado, no Seminário de História do Açúcar, assisti uma comunicação em que as fontes da pesquisadora eram os cadernos de receita de famílias tradicionais de Campinas, guardados no arquivo da Unicamp. Ela mostrava como, através das receitas, podemos reconstruir o cotidiano das famílias, seus hábitos alimentares, e até o poder de consumo. À época, fiquei muito impressionada, e ainda me espanto, em como a História pode ser interessante quando se volta para elementos do cotidiano, transformando-os em seus objetos de estudos (o que foi chamado de “renovação das fontes)

Meus cadernos de receita foram um presente da mãe de uma amiga muito querida. Segundo ela, todas as moças deveriam ter um. No meu caso, um para doces e outro para salgados. Além dos cadernos, ela acrescentou algumas receitas suas, escritas de punho próprio (o que considero o verdadeiro presente!). Por saber das minhas “condições de trabalho doméstico”, nenhuma das receitas necessita batedeira ou fritura. E todas permitem muitas variações.

Em 2010, também ganhei outro presente muito especial: as receitas de minha avó. Fui pedir uma, e saí com todas. Ganhei o exemplar datilografado, pois ela agora tem um impresso feito no word, cuja consulta e leitura são mais fáceis – mas é claro que ainda guarda a cópia manuscrita. O encadeamento das receitas revelou algo interessante: ingredientes que não são usados em uma, servem na outra. Exemplo: gemas de ovos na primeira, clara em neve na segunda. Fiquei pensando o quanto isso não acontece academicamente: não exploramos tudo que a pesquisa permite, porque depois tem o doutorado, o pós-doc ou a livre-docência. Isso, claro, sem levar em conta os prazos (que no fundo são os grandes limitadores).

Mas acho, para concluir, que tanto a literatura quanto a culinária compartilham de um ingrediente especial: a criatividade. Às vezes os melhores pratos são uma invenção do momento. E aquele livro que parece ruim no começo, termina surpreendente. No fim, não existe receita para dar certo. É preciso fazer mesmo.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Caminhos e Percursos

Tenho pensado muito nos caminhos que os livros percorrem. Por onde cada exemplar passa, a história que ao longo do tempo ele acumula. Desde sua impressão, venda, tudo que acontece com um livro ao longo de sua existência – sim, porque como todas as coisas, eles também são perecíveis.

Também ando refletindo sobre o lugar dos leitores nesse "tempo de vida" literário.

“Caminho” dá uma ideia de direção inicial-final: o caminho entre minha casa e a USP –  a(s) rota(s) que devo seguir para chegar ao meu destino. Já “Percurso” tem a ver com o ato do deslocamento: no percurso até a USP, passo pelo Arquivo Geral da Universidade.
Ambos me lembram Guimarães Rosa: “O real não está na saída nem na chegada: ele se põe pra a gente é no meio da travessia”.

Os leitores são parte da história de um livro. Eles explicam até mesmo sua existência.
Um dia cheguei à faculdade e um amigo me propôs: “vai fazer alguma coisa nas próximas horas?” Junto com outra amiga (não, não foi um menàge à trois) passamos a tarde retirando exemplares da biblioteca que continham anotações de cunho próprio, na última página, de um antigo professor. Essas observações manuscritas ajudaram-no em sua pesquisa.
Eu me pergunto: o que seriam, se não vestígios de quem leu aqueles livros?

Essa semana ganhei duas caixas de livros. Foram da mãe de uma amiga que faleceu recentemente. Era professora de História, especialista em História da Arte. Pela carga simbólica que representam, seria difícil conviver com eles. São livros sobre vários assuntos, a maioria com observações pessoais, e até mesmo dedicatórias.

As caixas continham livros didáticos, que infelizmente não me serão úteis; a coleção “Mestres da Pintura” e “Grandes Civilizações”, que viajarão em breve. E aquela que agora enfeita minha estante: a História Geral da Civilização Brasileira.

No total são 11 volumes, dos quais agora possuo 9. Nas caixas estavam do 3º ao 9º (sem o 8º). Curiosamente, há alguns meses ganhei de uma pessoa muito querida o 1º e 2º volumes. Assim, minha coleção semi-completa foi feita de doações de diferentes pessoas, por diferentes motivos. E mesmo que de uma maneira tortuosa, esses exemplares agora se encontram reunidos.

O que mostra que o destino sabe ser capcioso, até mesmo com os livros.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Uma Primeira Observação

Este blog é sobre livros.

Em algum momento, invariavelmente, ele será também um blog sobre literatura – quando eu fizer comentários sobre a história de um livro, algum personagem, ou como tal enredo me provocou a pensar sobre determinado assunto. Enfim, quando a análise for do conteúdo.

Mas por enquanto, o que eu quero é escrever sobre o objeto-livro. Esse aglomerado de páginas impressas, de diversos tamanhos e formatos, que ocupa um espaço considerável nos lugares por onde circulo.

No fundo, esse blog é um exercício de auto-conhecimento.

Uma amiga definiu isso de uma forma que eu não conseguiria fazer melhor: “o que é a história de um objeto, senão a história do valor e do sentido que atribuímos a ele? Conhecer a história de uma coisa, de um livro por exemplo, é uma forma dialética de conhecendo o "outro", conhecermos nós mesmos.”

Assim, entendo que minha relação com livros é um reflexo das escolhas que tenho feito. Ao pensar sobre eles, estou na verdade usando-os para pensar sobre mim. Eles são o meio que, nesse espaço, utilizo para refletir sobre a vida. A partir deles pensar: "por que?"
 
Entendam: o objetivo não é fazer um diário e chorar as mágoas, como preveniram nos comentários. É pensar o caminho se faz ao escolher esta ou aquela opção. 

Acontece que mesmo nessas horas, estou sempre acompanhada – por um bom livro, claro.